Mas neste momento da epidemia da mesmice infernal, prescrições incessantes de cuidados passivamente aceitos por todos (como se a o modelo de risco epidemiológico não tivesse imensas restrições !) e covardia existencial finalmente justificada em sua formatação de louvável prudência , minha revolta explode.

Na porta do Banco, na margem da sociedade, o casal de mendigos dorme , abraçado, em pleno e cálido dia ! Um fiel cachorro cochila a seus pés ! Seus pertences ... contidos todos numa saca de supermercado amarfanhada, ah que fantasia de liberdade me bafeja como um presente inesperado ...
Cochilam e murmuram e se espreguiçam , no asfalto imundo , como se em coxim de nuvens prateadas estivessem.
Irresponsáveis, magníficos, divinos como deuses caídos da Transcendência do Ser à miséria encarnada, que , todavia, seguros de seu estatuto perfeito, ignoram totalmente .
E ela me vem, a Inveja ! Totalizante, paralizante.
E quase me alegro de a sentir. Minha alma não foi ainda completamente subjugada aos pretextos sensatos que mal disfarçam o verdadeiro pânico por trás disto tudo : o do morrer prematuro por não ter sido servil o suficiente à sua função de mero elemento estatístico em uma arbitrária tabela equalizante à qual suas possibilidades de escolha foram reduzidas .
Procuro uma imagem que traduza o que sinto. É preciso que seja Bela, muito Bela. Que faça jus à
incongruente originalidade dos sentimentos que me suscita o casal rebelde.
Como um grito de cor transformando as listas da prisão em uma coreografia de contrastes, fruição estética que por um instante engambela o tropel da Vida abafado !